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Hoje eu não vou deixar ninguém sofrer

  • Foto do escritor: Liga Experimental
    Liga Experimental
  • 19 de dez. de 2025
  • 5 min de leitura

Texto por Ike Merlin

Ilustrações por Margarida de Carvalho


Dreno a vitalidade de uma murcha flor

Ao tirar leite de pedra de rio

Ou pescar num mar de petróleo

Esbagaço bagaços muitos com os punhos

Para encontrar sentidos tantos nos sensos


Faz um bom tempo desde que dezembro tornou-se cinza. Não o cinza de um sentimento enlutado, ou dos filtros de fotografias antigas que desbotam suas dores e cores para o tempo que perpassa as cortinas. Cinza de céu, cimento e cinzeiro. E poeira, bastante poeira. A acinzentada sujeira dissolvida em finíssimas partículas tomou conta do pequeno pinheiro de plástico que comprei ano passado. Faz um bom tempo desde que dezembro tornou-se empoeirada inexistência. E tento, ó, como tento, degelar inquebráveis geleiras e sublimar densíssimos nevoeiros.


Perambulando pelas caixas e por um desses devaneios de adulto, quando o peso do trabalho e da rotina recaem sobre as costas milimetricamente desenhadas para caber numa mesa de escritório, decidi rascunhar um anjinho na vidraçaria embaçada. O ar frio debatia-se incessantemente contra a superfície transparente. Esbagacei mentalmente o meu corpo contra o chão e transformei minha corporeidade numa silhueta de arcanjo bíblico. Tal hora um esboço, bem de longe. Olhinhos quase fechados, com a direita mão tampando a pálpebra esquerda. Neve não existiria neste hipotético cenário idealmente por mim reconstruído. Tampouco gelado seria como noutros trópicos do Hemisfério Norte. 


Nas férias de Sampa, à la Rita de tantas, remonto um quebra-cabeça de quando tudo era tão simples que cabia em um cartão postal. Ao dar de cara com a janela que enquadrava um desses parques que brotam do chão como um oásis na selva de concreto, vislumbrei um passado não-tão-distante, visto que minha cabeça está presa ao meu corpo e o meu corpo comigo está. E as memórias, tão boas e vívidas, também não saem da minha cabeça. Para além dos gélidos flocos, das guirlandas em chaminés e dos trenós em globos de vidro, tinha pontinhas dos pés deixando rastro pela areia, ou pincelando a tábua de taco a mimetizar a forma de pranchas e os ruídos de um disco arranhado. Longe dos gorros nas cabeceiras das camas, das meias vermelhas penduradas em lareiras aconchegantes e dos frutos poucos de pequenos visgos. Mas era bom. Ô, como era.


A costa praiana de Fortaleza é um evento estático particular e foi, essencialmente, dispositivo cênico de muitas de minhas autobiográficas peças teatrais. O encontro da natureza marítima com o aspecto industrial da capital é um díptico que surge uma em um milhão de vezes. Ou numa fábula afrofuturista e distópica, como quem tece o verbete e tenta contrair cada letra palavreada em busca de sumos e novos significados. E numa família de matriarcas, da bisavó que nunca conheci à mainha com quem tanto vivi, a arte sempre fora algo vital. Esquivas das esquinas e das trivialidades a serem deixadas de escanteio, no canto dos cantos que por aí ficam.



Mamãe sempre falou de Bisa Esperança, mãe da mãe de meu pai, responsável por ter concebido muitas das ramificações genealógicas de nossa família. Mulher de guerra, das unhas aos dentes, suor e tripas. Costurava malha de ouro com as próprias mãos, como se pudesse contorcer os minúsculos grãos de garrafinhas coloridas em enormes pipetas auríferas. Alquimia pura. E numa das fofocas discursadas, quando a quentura do café perde o calor para o bate-boca discorrido nas novelas em televisores de tubo ao fundo, chegou a vociferar um segredo guardado a sete mares e meia dúzia de chaves. Disse que a extensão ferroviária que conectava Maracanaú até Fortaleza, e de Fortaleza para Caucaia, tinha sido manuseada, prego a prego, por ela, quando sua máquina de costura não tinha dado prego por ser incessantemente usada. Tamanho desuso que tornou-se relíquia familiar. Mas antes de as alavancas e os reguladores emperrarem, contudo, Bisa deu luz ao seu projeto de maior orgulho: a Ponte do Rio Ceará.


Desde pivete ouvi relatos de todos, dos mais fiéis aos intensamente questionadores, sobre a semana em que Dona Esperança construiu sozinha, mas não solitária, a ponte, empunhando agulhas que obteve ao transmutar a brisa da praia em linha de aço. Costurava, costurava e costurava. Cada pedregulho, bloco de concreto e compósitos iam surgindo lentamente nas danças que ela articulava com o corpo para materializar seu sonho de caminhar acima das águas do mar. Solitude ao estar acompanhada por quem, afastado, a admirava. E no domingo do último dia, entre cadeiras de plástico e bolas de vôlei sobrevoando as cangas, Esperança descansou os cotovelos no Marco Zero da Barra, longe da muvuca da inauguração de sua grandiosa obra. E permitiu-se beber uma cerveja trincada de tão gelada.



Ao decalcar as vagas lembranças de minha infância, empilhando um rolo sobre o outro, retorno a uma das vésperas de Natal mais antigas que consigo recorrer através da memória, franzindo a testa e apertando cérebro em pontadas de cefaléia. Meu avô era marinheiro de médias-curtas viagens. Advindo de uma linhagem de guerreiros do mar, o velho adentrou em território marítimo puramente por herança, pois tinha medo de águas profundas. Até brincava que a fobia era hereditária, pois Bisa Esperança, para além do sonho de caminhar sobre as ondas, projetou o caminho para acompanhar o Bisavô Damião, seu pai, em suas temidas partidas diárias. E eu também tinha medo. Muito, muito medo.


Estávamos mais para lá do que para cá. A margem da orla abria alas para a rochosa cadeia que ficava mais próxima do rio do que do mar. Ainda, e sempre, Ceará. Seja água de serra, sertão ou manguezal. Devido aos horário e dia, ou até local, quem sabe, poucas jangadas foram avistadas pelos nossos olhares contempladores de pinturas em cavaletes. O tempo transcorria com a ligeireza de menino danado. Algoz e fugaz. Ademais, mainha sempre foi uma boa contadora de historietas, o que acelerava os passos em alguns quilômetros. De Chico da Matilde aos percursos de jangadeiros. E quanto mais anoitecia o céu em anedotas decantadas em cordéis, o esquecimento passou a pairar ainda mais profundamente sobre a ideia de que Cristo estava prestes a nascer. Novamente. 


Ao cantar em verso os caminhos de navegantes até as bandas de Canoa Quebrada, mainha sempre falou que eles pareciam comigo. Talvez pela necessidade de transpassar a coragem sua ao meu peito, tão acalentado pela ânsia e por amedrontados sentimentos. Havia um bote afincado a um protótipo de cais. Grossas cordas encardidas prendiam a embarcação a uma estaca de madeira com as cores de um Baobá. Minha mãe estendeu a mão e convidou-me para conhecer as estrelas do céu que desciam para dançar com águas-vivas, visão que não conseguíamos enxergar estando no cinturão de amontoadas pedras. Mesmo congelado pelo calafrio da apreensão, confiei em suas mãos acalentadoras de artesã do barro. 


Percebendo meus punhos a puxar seu vestido em nervosismo, minha mãe pôs-se de joelhos. Puxou-me calmamente com os braços e apertou seu corpo contra o meu. E, então, uma melodia acalmou o canto das esperanças a grilar ao horizonte. Como quem deixa a lata d’água cair no batente ao pé do poço, ou quando o fel perde a amargura para o encanto melífluo do mel.


Chora não, Oxum

De que chorar?

Sonha viu, Oxum

Sem lágrima

Hoje eu não vou deixar

Ninguém sofrer

Não quero ver a minha Oxum chorar

Colho os prantos sem deixar nenhum

Pra lhe acordar


Com o irromper gradativo de sua voz, lentamente adormeci em seu colo junto a ela. A pálpebra entreabertamente cobriu os meus globos oculares, permitindo-me um pequeno vislumbre da dança das águas-vivas, que copiosamente despencavam riachos do rosto áspero de mamãe e pulavam cascatas sorridentes para fora do bote de caráter inchado. Valsavam elas giratórias danças na boca da lua do espelho aquoso, enluarando o estuário com a cor púrpura da noite a reluzir centelhas cósmicas, a abrilhantar a congruente confusão de desabotoados risos e do caloroso amar. A douradíssima coloração dos tentáculos celestiais das medusas, com o amarelar-toque de desabrochadas sinas e dos sinos de Belém, afastaram o medo do rio e a valentia do mar, como quem fabula a vida através de uma infância a ecoar.



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