SEMANA DA ANCESTRALIDADE
- Liga Experimental

- 2 de dez. de 2025
- 9 min de leitura
Atualizado: 12 de mar.
Comunicar e expressar nossas raízes é relembrar quem somos
Por Alcides Neto e Pietro Ponte
Revisão de texto: Giovana Lameu

A 24ª edição da SECOM (Semana da Comunicação), realizada entre 10 e 15 de novembro, foi promovida pelo CAIM (Centro Acadêmico Ivonete Maia de Jornalismo), CAGIL (Centro Acadêmico Gilmar de Carvalho), PETCom UFC (Programa de Educação Tutorial) e PROCULT (Pró-Reitoria de Cultura da UFC), trazendo como tema “Vozes Ancestrais: É Festa no Terreiro”.
Se a proposta era trazer as raízes à superfície sem superficialidade, deu certo. O evento reuniu oficinas, palestras e rodas de conversa que atravessaram temas da ancestralidade às práticas publicitárias e jornalísticas.
A mesa de abertura, “O lixo vai falar: Comunicação e Identidade”, foi ministrada pela professora de Jornalismo Rosane Nunes e inspirada em uma citação de Lélia Gonzalez (1935–1994), intelectual fundamental nos estudos sobre racismo e sexismo. Lélia denunciava como, por muito tempo, a mulher negra foi tratada como objeto de estudo e não como sujeito, vista de forma infantilizada, incapaz e sem autonomia. Em resposta a isso, afirmou de forma direta e contundente: “A partir de agora o lixo vai falar, e numa boa!”.
Segundo Taís Lustosa, 20, Coordenadora de Comunicação do PETCom e estudante do 4º semestre de Jornalismo, a escolha do nome da mesa buscou ressignificar a negritude, subvertendo o lugar historicamente imposto do “lixo”, daquilo considerado descartável ou marginalizado. A discussão nasce dessa provocação e se expande ao refletir sobre o papel da mulher negra na sociedade.
Isabela Rifani, egressa do curso e fundadora do projeto de extensão ComCultura, abriu a programação da segunda-feira destacando a diversidade pouco discutida do jornalismo cultural. Na oficina “Jornalismo Cultural: Dentro e Fora das Redações”, realizada no CH2, ela ressaltou que a editoria vai muito além do padrão imposto pelos conglomerados midiáticos. O jornalismo cultural também se produz em redes sociais, assessorias, projetos de pesquisa e eventos universitários. “Não é só arte; é tradição, comportamento, memória, ancestralidade”, disse à Liga.
Na terça-feira, o produtor cultural Caio Vieira, criador da marca Hust Street, conduziu a oficina “De um Ponto a Outro: Produção Cultural e Streetwear”. Ele defendeu uma moda anti-hegemônica e relatou o desenvolvimento de sua marca, explicando o uso do termo streetwear e a marginalização que o circunda. Sua aproximação com o mercado cultural e projetos como o Arteculando, no Pirambu, surgiu ao perceber que vestir breakers, grafiteiros e outros artistas locais exigia também criar uma rede de apoio para fortalecer a permanência deles na cena artística.
A fotógrafa e jornalista pernambucana Ana Araújo, autora de As Louceiras de Tacaratu e PANKARARU – Identidade, Memória e Resistência, inspirou estudantes ao falar sobre fotojornalismo e produção de fotolivros. Em seus relatos sobre as mulheres produtoras de louças e sobre sua longa trajetória registrando o povo Pankararu, reforçou a importância de dar visibilidade às comunidades: “Se nós como jornalistas não dermos essa visibilidade, quem vai dar?”. Sua relação com o povo indígena é também pessoal: desde os anos 80, documenta momentos das nove aldeias e afirma que seu trabalho nasce do cotidiano. “Meu trabalho é pro meu povo; meu povo é minha inspiração.”

Encerrando a programação, a roda de conversa “Como o Jornalismo Político Chega nas Comunidades de Fortaleza” reuniu as jornalistas Camila Maia (O POVO), Gabi Feitosa (G1 CE) e Júlia Duarte (O POVO). Elas destacaram a importância da checagem, sensibilidade, representatividade e de uma agenda de fontes diversas, especialmente com pessoas pretas presentes em pautas amplas, e não apenas quando o tema é racismo. Também discutiram os desafios e a rotina do jornalismo político, comparando, com humor, à vida de um “motoboy de tretas”, dado o vai e vem constante de verificar fontes mais de uma vez, parte essencial do trabalho bem-feito.
No final da terça-feira, junto à SECOM, houve as comemorações pelos 60 anos do curso de Jornalismo da UFC, com a presença de professores, ex-professores, alunos e egressos do curso. De acordo com o professor Nonato Lima, “Muito do que é o jornalismo cearense, o jornalismo brasileiro e conquistas democráticas da sociedade têm, em algum nível, relação com a história do curso de Jornalismo da UFC que, nascido em 1965, em plena ditadura militar, soube manter seus compromissos acadêmicos e participar ativamente da luta pela democracia.”
Na quarta-feira, a programação começou cedo no ICA com a oficina “Narrando o Olhar”, conduzida por Kalyne Lima, comunicadora, modelo, influenciadora digital e primeira mulher a assumir a locução do Castelão em jogos do Ceará Sporting Club. Em um encontro marcado por troca e prática, Kalyne compartilhou sua trajetória na comunicação esportiva enquanto mulher preta e orientou os participantes em exercícios de locução.
No mesmo horário, outra turma participava da oficina “De olhar sensível ao comunicar sensível: pertencimento como estratégia”, ministrada por Nélida Alexandre, CEO do estúdio Cosmos. A proposta uniu teoria e prática para discutir como o sentimento de pertencimento influencia o posicionamento de marcas. Fotografias analisadas coletivamente ajudaram a compreender a comunicação como ferramenta de conexão.
Ainda pela manhã, o publicitário e artista Gabriel Souza (GAB) apresentou a oficina “Design Periférico: descentralizando o olhar para inovar”. Com referências vindas da moda, da música e das ruas, GAB provocou os estudantes a reconhecerem a potência estética das periferias e a incorporarem essa pluralidade em seus processos criativos.
À tarde, no Centro de Humanidades II, ocorreu a oficina “Passa a bola pra mim: cobertura esportiva”, ministrada por Rangel Diniz, repórter esportivo do O POVO, e Beatriz Carvalho, autora do livro-reportagem Passa a bola pra elas. A dupla apresentou técnicas de apuração, cobertura factual e adaptação de conteúdo para plataformas digitais. Para estudantes presentes, foi uma oportunidade de vivenciar, na prática, rotinas que ainda não haviam encontrado em sala de aula.
Encerrando as oficinas do dia, Patrick Sousa, designer e ilustrador, ministrou “Design Periférico: criando minha identidade a partir das ruas”. A partir da arte urbana, Patrick convidou os participantes a explorarem suas próprias narrativas de origem, refletindo sobre identidade, vivências periféricas e autoestima. A atividade terminou com uma produção coletiva de colagens, desenhos e pinturas.
A discussão “Como mudar a construção de narrativas das mídias tradicionais?” reuniu Karoline Tavares, redatora do The Sporting News Brasil, e Michael Rizzi, rapper e poeta marginal do coletivo Negrê, com mediação de Xaio Mar Lopes. A conversa abordou a urgência de repensar como os meios tradicionais retratam corpos negros e periféricos, além da importância crescente das mídias independentes.
O primeiro dia da Mostra Audiovisual, no espaço Bergson Gurjão, enfatizou o audiovisual como presença e memória. Foram exibidos dois trabalhos: “Costurando o Tempo”, de Nélida Alexandre, que apresenta relatos de mulheres pretas de Bacabal (MA) sobre pertencimento e identidade; e “Neguinha”, de Carliane Carneiro e Vitória Fernandes, performance visual que ressignifica estigmas impostos às mulheres negras por meio de uma boneca-escultura marcada por frases de resistência.

O penúltimo dia da Secom foi marcado pela força das linguagens audiovisuais na mostra “Não é Coisa de Momento: Exibir e Pertencer”, realizada no Espaço Bergson Gurjão, na Reitoria. O encontro exibiu produções de estudantes e egressos de Jornalismo e Publicidade, reafirmando o potencial criativo que brota das periferias e das vivências universitárias. Na sessão, o público assistiu ao documentário “Por uma Universidade Afro-Latino-Americana”, dirigido por Geo Lopes, e ao curta “Marfim”, seguido de conversa com a diretora, o educador Caio Oliveira e a estudante Grasieler Martins, que aprofundaram discussões sobre antirracismo, pertencimento e construção de memória.
A manhã no ICA abriu espaço para o debate “Forró de Favela: um debate sobre identidade e memória”, conduzido por Samuel Costa, que provocou reflexões sobre o papel do ritmo como marcador afetivo e expressão das desigualdades sociais presentes nas periferias. Simultaneamente, a roda “Empreendedorismo e Estética Negra” destacou trajetórias de mulheres negras no mercado criativo, mediada pela empresária e publicitária Estelu, proporcionando trocas sobre desafios e estratégias de quem empreende em um país onde mulheres negras movimentam, mas nem sempre recebem, o devido reconhecimento.
No Auditório Luiz de Gonzaga, o debate “Do Documentário ao Filme: Produções Audiovisuais no Jornalismo”, com Ed Borges, Luana Sampaio e Luiza Ester, explorou caminhos narrativos e possibilidades estéticas do audiovisual no campo jornalístico. Para estudantes, o encontro ampliou horizontes sobre atuação profissional. Já no MAUC, a roda “Anatomia de uma Exposição: Jornalismo e Curadoria” reuniu Débora Pompeu, Marcus Vinícius e Ismael Gutemberg, que discutiram como museus podem se tornar espaços de resistência e autoafirmação de comunidades historicamente marginalizadas. A conversa reforçou a necessidade de ocupar instituições elitizadas com narrativas periféricas.
As oficinas da manhã voltaram-se para o universo das mídias digitais com “Estratégias Digitais: criando comunidades e fortalecendo narrativas” e “Storytelling Estratégico”, ministradas por Vinni Teixeira e Diego Lucena. Os encontros discutiram caminhos do mercado da comunicação e o uso das plataformas digitais para fortalecer narrativas comunitárias.
No eixo das artes periféricas, a artista Pretassa conduziu “As Ruas Faladas por Nós”, oficina de slam que uniu escrita, performance e discussão social, ressaltando a potência política das narrativas que nascem das ruas. A programação voltada ao audiovisual seguiu com “Escrevendo Histórias”, ministrada pela roteirista e pesquisadora Luizete Vicente, que apresentou métodos profissionais de construção de roteiros, aproximando estudantes das exigências técnicas do cinema.
Para quem buscava uma experiência mais prática de áudio, a oficina “No Fluxo das Ideias”, com o jornalista Rômulo Costa, introduziu processos de criação de podcasts, inspirando estudantes a explorarem o formato como ferramenta de expressão e jornalismo.

O último dia da 24ª Semana de Comunicação da UFC, celebrado na sexta-feira, 14 de novembro, foi atravessado por expressões artísticas e pela reivindicação da memória como ferramenta política. Logo no início da tarde, a Secom inaugurou a sala temática “Exposição Abdias Nascimento: o Futuro nos Pertence”, dedicada a preservar e refletir sobre a trajetória do curso de Comunicação Social e suas muitas camadas de história. Dividido entre a sala JOR-08 e um mural no segundo andar do prédio de Jornalismo, o acervo reúne fotografias, pinturas, atas, registros estudantis e documentos que evidenciam tanto os afetos quanto as lutas que moldaram gerações.
A curadoria foi conduzida por Tacyla Barbosa, do 4º semestre de Jornalismo, que já atuava na Secretaria de Acessibilidade e Memória da antiga gestão do CAIM. O trabalho foi uma construção coletiva: “Encontramos coisas que nem sabíamos que existiam. E fico imaginando se, daqui a alguns anos, outras pessoas vão olhar para nossas produções com o mesmo sentimento que temos ao ver as de quem veio antes”.
Entre os visitantes estava o jornalista egresso Rômulo Costa, que reconheceu na mostra um marco importante para o curso: “Ela resgata a história da Comunicação, o curso mais antigo do Ceará. Em tempos em que a universidade e o pensamento crítico foram atacados, preservar a memória também é fazer resistência”.
A escolha de homenagear Abdias Nascimento, artista, político, poeta e referência no movimento negro brasileiro, reforça esse compromisso. Para a professora Cida de Sousa, doutora em Comunicação e Cultura, a exposição opera justamente nessa fronteira entre afeto e registro histórico: “Não se trata só de conservar o passado, mas das emoções que ele provoca. O que fizeram ali é uma experiência viva da relação entre história e memória”.
Enquanto a exposição destacava o passado, o prédio de Jornalismo ganhava novos contornos no presente com o “Pinturaço”, intervenção que espalhou frases, símbolos afro-brasileiros e grafites pelos corredores. As criações de Danos Murais, Raabe (Blessed) e Mira transformaram o espaço ao som de ritmos negros brasileiros, reafirmando a estética periférica dentro da universidade.
Danos resume a intenção do trio: “Quero imaginar futuros para nós que não partam da dor. A arte é uma forma de colocar esses mundos possíveis no real”. Blessed apresentou uma obra inspirada na música Derreter & Suar, incorporando cores, guias e símbolos africanos que dialogam com ancestralidade e espiritualidade — temas centrais da Secom. Outras produções espontâneas surgiram ao longo da tarde, com representações de orixás, espadas de São Jorge, frases e ícones da cultura negra, compondo um grande mosaico coletivo de identidade.
No pátio da Torrinha, a Copa Chica, organizada pela A.A.A Visionária, levou leveza ao fim do dia com provas de stop, adivinhação musical e dança das cadeiras. A equipe “Dain (Inclusão)” venceu a disputa com 130 pontos e celebrou com chocolate na mão. “Depois de um dia cansativo, foi tudo o que eu precisava”, comentou a estudante Joyce Rodrigues, do 4º semestre de Jornalismo.

A 24ª Semana de Comunicação cumpriu seu propósito de ser um espaço potente de reafirmação de identidade e resgate de memória. Ao longo de cinco dias, o evento transcendeu a teoria acadêmica, transformando os espaços da UFC em um verdadeiro terreiro de saberes e afetos, conseguindo interligar debates, oficinas e intervenções culturais. A SECOM mostrou que a ancestralidade é a chave para transformar o presente e construir um futuro, honrando a memória e amplificando também vozes negras e periféricas.



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